Tenhamos cuidado em não divinizar o nosso líder, o nosso candidato, o nosso partido, o nosso grupo, o nosso trabalho, a nossa comunidade

1. Este é um domingo em que os portugueses escolhem livremente os seus autarcas. Ninguém espera, por certo, uma indicação de voto. No entanto, as palavras de Moisés e as de Jesus convergem numa ideia fundamental: tenhamos cuidado em não divinizar o nosso líder, o nosso candidato, o nosso partido, o nosso grupo, o nosso trabalho, a nossa comunidade, como se, do outro lado, do lado oposto ou do lado de fora, nada ou ninguém se pudesse aproveitar. É necessário deixarmos de pensar segundo as categorias sociais que opõem amigo e inimigo, nós e eles, o nosso partido e o partido dos outros, o nosso clube e os outros clubes, os de fora da Igreja e os de casa, como se do nosso lado estivesse toda a virtude e do lado oposto toda a desgraça.

2. A resposta de Moisés àquele jovem fundamentalista ou a de Jesus a João e aos discípulos vale para todos os que querem controlar a ação profética do Espírito de Deus. A mensagem é muito clara: não há fronteiras que delimitem o Espírito de Deus, o Qual fala pela voz dos crentes e não crentes, dos praticantes e não praticantes, dos de dentro e dos de fora do nosso campo ou acampamento. Não há uma linha que separe, limite ou delimite o espaço da ação do Espírito de Deus. Nada O veda, porque este Espírito Santo é derramado sobre todos e por toda a parte, sem distinção de cor, de raça, de partido, de região ou de religião. Por isso mesmo, nenhuma fronteira, desenhada por nós, impedirá o Espírito de Deus de falar ou de agir, de soprar ou de mexer, onde quer e como quer e por quem quer! Devemos, por isso, estar atentos ao bem genuíno, à beleza e à verdade e não tanto ao nome, à etiqueta, à marca ou à proveniência de quem os pratica! Se algo é bem dito ou bem feito, não importa de onde isso vem. Vem sempre por bem.

3. Neste início de ano pastoral, queremos escancarar todas as portas. Todos são bem-vindos: a gente nova e a nova gente, os habituais e os intermitentes, os de casa e os ausentes, os mais e os menos novos: somos todos irmãos e irmãs. É importante «não excluir» nenhum dom profético, não rejeitar ninguém. Quem dera que todos profetizassem! Quem dera!

4. Estamos a 20 dias de iniciar um processo sinodal, a nível de cada diocese, para promover a escuta de todo o povo de Deus, porque todos e cada um dos fiéis, graças ao seu Batismo, «participam da função profética de Cristo» (LG 12) e, nessa medida, por meio de cada um o Espírito Santo tem uma palavra a dizer. Eis porque é tão importante que cada um se ponha à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, para conhecer aquilo que Ele diz às Igrejas (cf. Ap 2, 7), hoje, aqui e agora.

5.Irmãos e irmãs: o Espírito Santo não é reserva ecológicada nossa quinta paroquial. Ele fala, muito e bem, através daqueles que não frequentam a nossa Igreja ou não partilham as nossas convicções. Devemos escutá-los a todos com humildade, se queremos realmente deixarmo-nos guiar pelo Espírito da Verdade e caminharmos juntos. E caminhar juntos é caminhar também com todos os irmãos e irmãs, com todos aqueles com quem partilhamos «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias» (GS, n.º 1) deste nosso tempo.Por isso, é fundamental que não tenhamos um olhar inviesadoque só vê de um lado, ou um ouvido seletivoque só reconhece a voz dos que falam como nós.

Vivamos esta liberdade interior, para caminharmos todos juntos, de mãos dadas, como irmãos e irmãs, por um caminho novo.

P. Amaro Gonçalo * Pároco da Senhora da Hora (Matosinhos) * Diocese do Porto

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