Quilómetro zero!

Usando uma expressão do nosso Secretariado Diocesano das Vocações (Porto), eis-nos no Km 0.
Hoje, em todas as dioceses, tem lugar a celebração inaugural do Sínodo sobre a sinodalidade (não, não é redundante!).
Espera-se que o próprio caminho, que culminará na Assembleia dos Bispos em outubro de 2023, seja ele mesmo exercício sinodal, sínodo ao vivo, sínodo em ação, pela prática de uma escuta recíproca de todos, pela procura comum de um caminho novo, pela exercitação do discernimento à luz do Espírito Santo, na fidelidade ao Evangelho.
Ouvir todo o Povo de Deus, mesmo os que não gostamos de ouvir, ouvir mesmo os que achamos que não têm direito ou autoridade para falar, porque os colocamos do «lado de fora»…, ouvir a totalidade dos fiéis, que, em matéria de fé, não pode enganar-se, porque todo o Santo Povo de Deus é assistido pelo Espírito Santo… é decisivo, porque ouvindo-nos, vamos encontrando juntos o caminho, refazendo posições, acolhendo novidades, alargando horizontes, deixando cair bandeiras…
Não é fácil, não vai ser pêra doce, para uma Igreja tão incrustada de sinais poderosos, tão apegada a hábitos eclesiásticos, tão enraízada em práticas e procedimentos mundanos e “des-evangélicos”, cheia de esplendores e resplendores, de graus e degraus desadequados e até contraditórios daquele caminho de humildade e de serviço, que o Senhor nos propõe.
Como ferem e contradizem a nossa condição de “servos” tantos títulos, honrarias, mordomias, carreiras, senhorias, reverências, que só atrapalham, tentam e traem a nossa identidade de discípulos de Cristo.
Não faria mal que começássemos por dar um sinal no tipo de vestimentas que usamos… nos ornamentos e outras quinquilharias sacras com que nos expomos. Aos olhos do povo, assemelham-nos a peças de arte ambulantes, a palhacinhos de Deus, e assim nos desaproximam daquela simplicidade evangélica a que urge voltarmos. Mas talvez isso venha mais por consequência do que no e por princípio…
Tenho viva esperança que se venha a dizer deste Sínodo que será um marco histórico, o maior acontecimento da Igreja, desde o II Concílio do Vaticano, o ponto de viragem no caminho da Igreja, que assim desenvolve e aplica, acelerando até ao fundo, as grandes intuições e propostas do ensinamento conciliar.
Comecemos todos, cada um, por uma verdadeira conversão no nosso modo de pensar, de falar, de agir, o que obrigará, por certo, a “reinstalar” um novo software, mental, espiritual e pastoral, de uma Igreja de discípulos missionários, de povo peregrino, e não de estádios e degraus.
Estamos no Km 0. Que o conta-quilómetros avance. Não nos falte depósito para o combustível do Espírito Santo, que não sofre de inflações. Rezemos e trabalhemos por um Sínodo que renove o coração e o rosto da Igreja.
P. Amaro Gonçalo * Pároco da Senhora da Hora (Matosinhos) * Diocese do Porto

Diariamente lemos o mundo na procura de sentido para encontrarmos a mensagem religiosa necessária para si. Fazemo-lo num tempo confuso que pretende calar o que temos para dizer. Sem apoios da nomenclatura publicitária, vimos dizer-lhe que precisamos de si porque o nosso trabalho não tendo preço necessita do seu apoio para continuarmos a apostar neste projecto jornalístico.

Deixe uma resposta

*