Púlpito: O tempo que estamos a viver não precisa de cristãos de sofá, de treinadores de bancada, de revoltados em redes sociais; de engraxadores e lambe-botas dos poderosos…

1. A Palavra de Deus, que desce do alto, passa ao lado de todos os grandes do tempo e do templo e é dirigida precisamente a João, filho de Zacarias, no deserto. A Palavra chega a quem sai da sua zona de conforto, põe pés ao caminho, sem medo de usar e de sujar os pés e os sapatos no pó da estrada. João sai dos lugares habituais e é capaz de desbravar caminhos novos: vai aonde ainda ninguém foi; fala a quem ainda não o ouviu; ouve os sem voz; escolhe os excluídos. Esta é a sua forma típica de altear os vales, de tapar os buracos negros, cavados pela frieza e pela indiferença. Este é o seu jeito de aplanar as veredas e limar as asperezas do caminho, empedradas pelo orgulho e pela soberba. E João Batista prepara este caminho do Senhor desbravando-o, arriscando, percorrendo-o, solidário com os outros. Eu diria que ele conhece e partilha a sorte dos seus ouvintes, calçando os seus sapatos, afinal os sapatos de todos os descalçados do seu tempo.

2.Queridos irmãos e irmãs:  o Messias que João Batista anuncia, com o seu próprio estilo de vida, é o Senhor do risco, que nos desafia a ir e a sair sempre mais além. Jesus não é o Senhor do conforto, da segurança e da comodidade. Para receber e seguir Jesus é preciso ter coragem detrocar o sofá por um par de sapatos (e porque não de sandálias?), que nos façam caminhar por estradas nunca antes sonhadas e nem mesmo pensadas, abrindo novos horizontes para a vida. Para tudo isto é preciso seguir os passos da «loucura» divina, que nos leva a encontrá-L’O no faminto, no sedento, no maltrapilho, no doente, no amigo em maus lençóis, no encarcerado, no refugiado e migrante, no vizinho que vive só, na pessoa que ignoro, naquele de quem desvio o meu olhar. Usar os sapatos e caminhar pelas estradas do nosso Deus fará de nós pessoas empenhadas, que pensam, agem, lutam por novos caminhos, novas respostas, novas soluções para os desafios deste tempo.

3. Precisamos hoje de ter a coragem de dizer por aqui não, face a tantas propostas políticas já gastas e a tantas respostas sociais falhadas e a tantos estilos de vida pessoais doentios, porque foi este o atalho que nos trouxe até ao exílio, até à pandemia, até à presente crise ecológica global. O tempo que estamos a viver não precisa de cristãos de sofá, de treinadores de bancada, de revoltados em redes sociais; de engraxadores e lambe-botas dos poderosos; precisa de gente que não tenha medo de sujar as mãos e os pés, de usar e de sujar os sapatos, de estalar o verniz, de incluir os excluídos, de integrar os diferentes, de valorizar a riqueza da variedade, de abraçar todos aqueles que, muitas vezes, esquecemos ou ignoramos ou de quem desviamos o nosso olhar.

4. Muitos dirão que este desafio de caminhar juntos, numa Igreja em saída, é um caminho cheio de riscos. Talvez. Mas é preferível uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas do mundo a uma Igreja enferma, a cheirar a mofo por estar fechada, acomodada, agarrada às suas próprias seguranças. Mais do que o medo de usar e de sujar os sapatos, mais do que o medo de falhar ao caminhar pelos desertos deste mundo, tenhamos medo de nos encerrarmos nas nossas coisinhas, de nos instalarmos em hábitos que nos tranquilizam, enquanto, lá fora, há uma multidão faminta e sedenta (cf. EG 49).Devem ser esses, os pobres, o alvo preferencial da nossa atenção neste Natal. Comecemos por tentar descobrir quem são esses, dentro da nossa própria família, dentro da nossa Igreja, dentro da nossa sociedade, os mais esquecidos, os mais ignorados, os mais desprezados e o que podemos fazer de bem e de concreto por eles.

5.Irmão e irmã: Não olhes de lado, não deixes ninguém sozinho, não deixes ninguém na beira do caminho. Usa os teus sapatos; desbrava caminhos novos ao encontro dos esquecidos no pó da estrada, no circuito interno do teu coração.

O desafio mantém-se de pé e é para todos: Pés ao caminho. Juntos pelo Natal.

 

P. Amaro Gonçalo * Pároco da Senhora da Hora (Matosinhos) * Porto

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