Púlpito: Deus vem durante a noite, por entre as nuvens tenebrosas que se acumulam e se adensam sobre a nossa vida agitada e abalada

1. Hão de ver o Filho do Homem vir numa nuvem!

Esta é uma bela imagem, que contemplávamos na primeira leitura do último domingo e que Jesus aplica a Si, no Evangelho de hoje. É uma imagem que alude à vinda gloriosa do Senhor, no final dos tempos. O Senhor, que desceu do Céu e veio até nós, sempre vem e sempre virá do alto. Esta profecia ilumina as nossas noites, com esta confiança inabalável: Deus vem sempre! Deus está sempre presente e em ação. Ele dirige a nossa história para Ele, para o bem. Ele vem e atravessa as nuvens das incertezas para nos tranquilizar, como se nos dissesse: Não vos deixo sozinhos, quando a vossa vida é envolvida por nuvens escuras. Eu estou sempre convosco. Deus vem durante a noite, por entre as nuvens tenebrosas que se acumulam e se adensam sobre a nossa vida agitada e abalada. Em tais momentos nebulosos, olhemos para além da noite, levantemos o véu do olhar, para vermos o Senhor e O reconhecermos no meio da obscuridade!

2. Levantai a cabeça!

Por isso, a palavra de ordem de Jesus é esta: Quando virdes isto a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça. O mesmo é dizer: tende olhos lúcidos e não vos canseis de procurar a luz no meio das trevas que penetram o vosso coração ou vedes ao vosso redor. Levantai o vosso olhar da terra, na direção do alto, para não fugirdes ou ficardes soterrados no chão dos vossos medos. Levantai o olharLevanta-te! Este é o convite que inspira o nosso ano pastoral; este é o imperativo da Mensagem do Papa, no caminho de preparação da próxima Jornada Mundial da Juventude. “Levanta-te” significa, então: permanece de pé, mesmo se tudo parece desmoronar; sê uma sentinela capaz de ver a luz na visão da noite; constrói a paz no meio das ruínas; sonha acordado e não adormentado. Acende, no meio da noite, uma luz de esperança, que anuncie o amanhã. Sonha, sê vigilante, sê diligente e olha o futuro com coragem!

3. Pés ao caminho!

Com este olhar, de cabeça erguida, levanta-te, deixa as pantufas e o sofá, põe-te de pé, calça os sapatos (e porque não umas sapatilhas?) e pés ao caminho! Mas não vás atrás ou à frente, sozinho. Lembra-te do teu par de sapatos: ele sugere-te que é preciso caminhar juntos. Se é verdade que não se podem meter os dois pés no mesmo sapato, também ninguém consegue caminhar só com um dos sapatos. Somos, por isso, chamados a percorrer este caminho sempre juntos: na família, na Igreja, no nosso mundo. Na verdade, “ninguém pode enfrentar a vida isoladamente; precisamos de uma família, de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente; é juntos que se constroem os sonhos (cf. FT 8). É juntos, sem deixar ninguém à margem ou para trás, que podemos encontrar e caminhar na direção justa. Neste caminho sinodal, que começamos agora a percorrer, esta é a mais essencial aprendizagem: caminharmos juntos, em família, em Igreja, no mundo, como povo peregrino, povo a caminho!

4. E os sonhos no sapatinho.

Irmãos e irmãs: coloquemos junto do presépio os sapatinhos de Natal. São uma espécie de cofre aberto dos nossos sonhos mais secretos. Somos desafiados, nesta 1.ª semana do Advento, a responder a duas perguntas sobre o nosso caminhar juntos em família e a escrever as respostas numa espécie de bilhete-postal, dirigido à nossa própria família, que designaremos idealmente por Família Natal. Coloquemos no sapatinho junto do Presépio os nossos sonhos para a família. E, nos sapatos grandes, que estão à entrada da nossa igreja, colocaremos as nossas respostas a duas perguntas semelhantes, sobre o que é isto de caminharmos juntos em Igreja. Essas respostas fazem parte de uma imaginária Carta ao Papa Natal.

Deste modo, percorreremos o caminho para o Natal, em modo sinodal. O primeiro passo é este: Levanta-te e calça os teus sapatos. Pés ao caminho. Juntos pelo Natal.

 

P. Amaro Gonçalo * Pároco da Senhora da Hora (Matosinhos) * Diocese do Porto

 

Título da responsabilidade de Religiolook. 

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