É irresponsável arruinar a imagem do pai ou da mãe com o objetivo de monopolizar o afeto do filho

Não sei se algum influenciador estará a ouvir, do seu sofá, pela televisão ou pelas redes sociais, as leituras deste domingo, pronto a pôr a ridículo o texto poético da criação da mulher ou a reivindicar a carta de divórcio passada por Moisés. As leituras deste domingo fazem-nos balançar entre o sonho ideal do casamento e o pesadelo de um divórcio, com as crianças de permeio, como vítimas inocentes da separação dos pais. Conversemos hoje e em família, calmamente, sobre tudo isto.

 

  1. Comecemos pelo sonho. Jesus remete-nos para o projeto inicial de Deus, relativamente ao Matrimónio. Logo no princípio, diz-se que: “Deus plasma a mulher enquanto o homem dorme um sono profundo” (Gn 2, 21) e deste modo o texto sugere que, para encontrar a mulher — e, podemos dizer, para encontrar o amor na mulher — o homem deve primeiro sonhá-la e depois encontrá-la” (Papa Francisco, Audiência 22.04.2015).O contrário também é verdade. De forma poética, percebe-se a mensagem: a mulher é dada ao homem enquanto “ele dorme” e, portanto, não é obra das suas mãos, não é um produto seu nem uma réplica sua. Tirada de um “lado”, a imagem sugere-nos que a mulher é a outra face do rosto de Deus e não uma réplica do varão. A imagem da mulher, formada a partir do “lado” do homem, sugere-nos que ela, embora diferente do homem, no seu génio e singularidade, é feita da mesma massa, tem a mesma dignidade humana. São os dois uma só carne. Não há aqui “carne de primeira” ou “carne de segunda”. É precisamente nisto que consiste o mistério do Matrimónio: dos dois esposos Deus faz uma só existência (cf. AL 121). Assim, “querer formar uma família é ter a coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de unir-se a Ele nesta história, de construir um mundo onde ninguém se sinta só, onde ninguém se sinta supérfluo ou sem lugar (AL 321).

 

  1. Mas o sonho pode tornar-se pesadelo. A carta de divórcio passada por Moisés é um limite posto à dureza do coração, pois sem esse certificado a mulher tornava-se uma espécie de presa do homem, sujeita a morrer à pedrada se viesse a ligar-se a outro. No fundo, tal certificado destinava-se apenas a pôr ordem e humanidade no abuso discricionário do poder masculino. Neste sentido, este texto não pode servir de pretexto para marginalizar, diabolizar, condenar ou excluir da Igreja as pessoas que não conseguiram alcançar o ideal do matrimónio cristão. “É preciso reconhecer que «há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela prepotência e a violência, pela humilhação e a exploração, pela alienação e a indiferença. Mas deve ser considerado um remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis” (AL 241).

 

  1. Não podemos ignorar, de permeio entre o sonho e o pesadelo, as crianças, vítimas inocentes da separação dos pais. “Peço aos pais separados: «Nunca, nunca e nunca tomeis o filho como refém! Separastes-vos devido a muitas dificuldades e motivos; a vida fez-vos passar por esta provação, mas os filhos não devem carregar o fardo desta separação; que eles não sejam usados como reféns contra o outro cônjuge, mas cresçam ouvindo a mãe falar bem do pai, embora já não estejam juntos, e o pai falar bem da mãe». É irresponsável arruinar a imagem do pai ou da mãe com o objetivo de monopolizar o afeto do filho, para se vingar ou defender, porque isso afetará a vida interior daquela criança e provocará feridas difíceis de curar” (AL 245).

 

  1. Irmãos e irmãs: estamos a viver o Ano Família Amoris laetitia (de 19 de março de 2021 a 26 de junho de 2022). Seja um tempo oportuno para apostarmos em novos percursos de preparação mais exigente para o Matrimónio, porque é preparando-o melhor e reforçando o amor conjugal que se podem evitar os casos tristes de separação. Seja um ano para intensificarmos formas de acolhimento e de discernimento, de inclusão e de integração, de mediação e de reconciliação das pessoas divorciadas, quer das que permanecem fiéis ao vínculo matrimonial, quer das que vivem uma nova união. “É preciso fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que «não estão excomungadas» nem são tratadas como tais” (AL 243). A nenhuma destas pessoas Jesus Se envergonha de lhes chamar irmãos (Heb 2,11)!

 

  1. Este é um trabalho paciente, que diz respeito a todos, mas faz parte da missão específica dos casais e das famílias cristãs. Deveis ser vós – queridos casais, queridos pais, queridas famílias – os primeiros a preparar, a ajudar, a acompanhar, a levantar, a adotar outros casais, outras famílias, outras crianças, para cultivar e reforçar a alegria do amor em família, para ajudar a curar as suas feridas, apostados numa pastoral de acolhimento e de acompanhamento, de integração e de envolvimento, de testemunho e de compromisso, de consolação e de consolidação, de paz e de reconciliação entre pessoas, casais e famílias.

 

Levantemo-nos, pois, famílias! “Avancemos; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325). Avancemos, de par em par, juntos, por um caminho novo!

 

P. Amaro Gonçalo * Pároco da Senhora da Hora (Matosinhos) * Diocese do Porto

 

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