“Dia de Todos os Santos”: Os mortos vivíssimos e os vivos mortos?

Nunca me esquecerei que, quando eu e a minha esposa começámos a comunicar que nos íamos casar num dia 1 de Novembro, muitas pessoas nos disseram algo como “Uiiii… no dia dos mortos!?! Isso dá azar!”. Em resposta tais interjeições principiei a replicar “Dos mortos? Não! Dos vivíssimos! Isso dá amar!”.

Ainda hoje, sempre que a temática da morte é trazida à atenção, digo parte de tal réplica, pois é um erro os cristãos pensarem que aqueles que já faleceram estão mortos. Um tremendo erro. Efetivamente, eles estão mais vivos do que nunca, pois, finalmente, são plenamente eles próprios no coração do Deus-Amor que deles, e com a sua colaboração amorosa, retira o que era falsidade, ilusão e morte egoístas.

Se assim é, e como o subtítulo deste texto pretende deixar patente, não são aqueles que já passaram pela morte biológica que estão mortos, mas muitos de nós que, vivendo aquém dessa morte, o estamos. E estamo-lo porque não amamos (cf. 1Jo. 3,14), dado que estamos cheios de nós mesmos, não dando a Deus a mais pequena hipótese de, em nós, viver como nosso Deus e impedindo os diversos dons que nos foram confiados de se tornarem fecundos. Assim sendo, transmitimos aos demais a real perceção de que, afinal e apesar de todos os esforços de ocultamento de tal verdade levados a cabo pelo nosso egoísmo, somos um atroz deserto vazio.

Os santos, já plenos em Deus ou a caminho dessa plenitude em Igreja, são aqueles que, havendo nascido verdadeiramente para o amor antes de morrerem biologicamente, não traíram, nem traem, a sua vocação. E isto porque são verdadeiramente transparentes a Deus. Eis o que, no meu entendimento, nos fascina neles: o apontarem, não para eles mesmos, mas para o Deus-Amor que transparece por eles e que, se assim o desejarmos, nos acolhe também por eles na Sua eterna comunhão de amor. Aqui temos, justamente, o que é a eternidade: a nossa genuína identidade vital, íntima e relacional n’Ele e nos que n’Ele estão vivíssimos.

No Dia de Todos os Santos, nós, cristãos, somos chamados, de um modo mais intenso para a nossa consciência, a participarmos na oferenda que todos os santos, que já estão plenamente em Deus e assim consumados no amor, fazem de si a Deus e por Ele a nós. Eis-nos confrontados com a realidade de que já vivemos, em Igreja, numa imensa procissão de amor e fraternidade. Uma em que, pelo contacto com tais santos, nos recordamos que não há maior obstáculo para um crente chegar quer à sua verdade, quer a Deus, do que aquilo que nesse sujeito é apenas ele mesmo.

A morte biológica não rompe as nossas ligações com esses nossos irmãos, pois o que de mais íntimo há em todos nós é a presença de um Deus-Amor que faz com que as nossas relações com aqueles adquiram aquela qualidade de eternidade e inseparabilidade que é, precisamente, o segredo das mesmas. Também isto nos é recordado no Dia de Todos os Santos: que o amor divino, também quando unido ao amor humano (à semelhança da união em Deus-Filho da natureza humana e da divina), é eterno. Que, pelo que se denomina “comunhão dos santos”, os corações humanos permanecem unidos através da morte graças a um amor que, em Deus, não conhece cisão.

Nenhum de nós se comove com o que está morto, mas apenas com o que está vivo; com aquilo a que aquela morte espiritual negativa, que decorrente do egoísmo, não toca: o amor. Assim, esta Festa que celebramos, todos os anos, a 1 de Novembro, não é a comemoração de “heróis” de épocas passadas, antes um estímulo a levarmos a sério a ação de um amor divino-humano que nos santifica. A santidade é para todos, não mediante o fazermos o mesmo que os outros santos fizeram, mas através de nos deixamos motivar por aquilo que os moveu a realizarem as suas ações: o amor ardente por Jesus, aos Seus critérios e as Sua intenções.

Compete-nos deixar crescer em nós essa motivação amorosa através de tudo o que fazemos – e, porventura e em determinadas situações, deixamos livremente que nos aconteça – em espírito de oferenda, entusiasmo e alegria. E tudo isto, sem jamais precisarmos de ser exilados, por um momento que seja, do que mais estimamos e cuidamos, conquanto nos envolvamos com isto mediante aquele desapego que, sendo característico do próprio Deus-Amor em que não há a mais pequena réstia de apego, é eternizável.

A eternidade, quando bem entendida, não é uma enorme quantidade de tempo e “para depois” da morte. É, isso sim, o tempo totalmente convergido no amor e já para o “aqui e agora”, sempre que vivemos em sintonia com o próprio coração de Jesus e a Sua missão, que tem o seu prolongamento historicamente visível e apreensível na Igreja. É em cada decisão nossa orientada ao amor que Deus Se revela e Se nos dá a encontrar e, ao mesmo tempo, a nossa liberdade se realiza ao se refundar de modo original na nossa Origem. Um refundar que, em derradeira análise, faz de nós, não só parceiros de Deus numa Aliança de amor, mas co(m)-criadores com Ele sempre nesse amor.

Se assim é, os santos em Deus, tendo falecido e estando vivíssimos, não foram para um Deus desconhecido, anónimo, despersonalizante e invejoso de nós. Eles entraram definitivamente nos seus corações que, tornados ilimitados por Deus, eram o paraíso desse mesmo Deus. O paraíso onde o Deus-Amor vivia, e em nós também pode viver, em liberdade amorosa. Eis a razão de o Céu não ser um amontoado de “eus”, mas um “nós” numa comunhão de liberdades amadas e amantes, em que cada uma pode preenchê-lo sem o encher.

Para tudo isto que tenho estado a referir, a relação com os santos, que já vivem em Deus, pode ser uma ajuda preciosa. Eles são aqueles em quem a incarnação de Deus pôde continuar a ocorrer de uma forma ou de outra; aqueles em quem o Criador pôde tornar-Se a Vida das suas vidas; aqueles em quem o Centro do Universo deixou de ser uma qualquer partícula efémera e Se revelou como a Origem, Sustentáculo e Meta eterna dessa partícula; aqueles que não se enganaram nem enganaram.

Pelo dom de eles mesmos, a ação de Deus intensificou-se, e ainda se intensifica, nas suas consequências. Deveras, com a densíssima relação nupcial que já têm com Deus, eles, de alvorada de algo novo em alvorada de algo novíssimo, podem fazê-la presente ao nosso coração através d’Ele mesmo. Se tudo é como referi, nada de tristeza, por conseguinte, no Dia de Todos os Santos. Não ignoremos isto, nem ignoremos tais nossos irmãos que “torcem” para que vivamos no amor antes de morrermos biologicamente.

Alexandre Freire Duarte * Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

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