“Dia de Natal”: Um Deus baixíssimo e nós altíssimos?

O que falta dizer sobre o Natal? É difícil imaginar que, acerca desta celebração, algo possa ser referido de distinto face ao que já foi sendo dito ao longo dos últimos dois mil anos, seja em atitude de louvor celebrativo, seja em atitude de escárnio desconhecedor. Mas a Teologia também tem, entre as suas quatro grandes fontes genéricas fundamentais, a experiência pessoal do teólogo. Assim, o que eu sou também pode, e até deve servir de escantilhão definidor de uma perspetiva relativamente singular. A ver vamos.

Não me é possível começar a falar do Natal senão recordando uma temática que, embora absolutamente tradicional no Cristianismo e com enormíssima pena minha, ainda não foi por nós assumida, celebrada e comunicada da forma como mereceria. Refiro-me ao tema da divinização que, seguindo-se uma máxima patrística que eu gostaria que estivesse bem presente no nosso coração cristão, refere que Deus Se fez Homem para que o homem (varão e mulher) se fizesse Deus; isto é, que Deus Se fez baixíssimo, mas sem Se limitar, para que nos fizéssemos altíssimos, mas sem nos deslimitarmos; que Deus Se fez, ultimamente, desamor, para que nós nos fizéssemos Amor.

Eis todo o Cristianismo expresso numa sentença tão simples quão maravilhosa; uma sentença que diz, por entre as marés dos medos e os ventos das censuras, que o Natal é a realização da mais profunda aspiração da humanidade. Aquela aspiração radical que, tendo sido semeada por Deus no mais fundo do nosso Coração (a ponto de ter sido por aí que d’Ele começámos a ser afastados), foi sendo tateada, imaginada e plasmada de mil e uma formas, até ter sido realizada real e historicamente em Jesus Cristo: a da humanidade ser unida à divindade, para mais dela se separar. A aspiração de nós, em e com Deus, podermos dizer em conjunto, sem apreensão ou vanglória alguma, “somos Amor”. Não acreditar nisto, não é tanto um sinal de uma descrença em Deus, quanto de uma descrença no homem.

Pela infinita generosidade de Deus-Amor, que desde sempre esteve connosco até que um de nós (Maria) se fizesse de tal modo transparente a Si que Ele pôde incarnar em nós e Se fazer criatura sem deixar de ser Criador, podemos encontrar Deus no Homem e no homem. Podemos, por um ato teologal com rosto e mãos de amor e bondade, deslindar em qualquer ser humano o divino que nele, tantas e tantas vezes, se encontra oculto sob a ferrugem do egoísmo e de tudo o que lhe pode estar a negar a dignidade, o valor e a liberdade.

Não basta reconhecer a Deus no Menino de Belém. Esse reconhecimento, sendo verdadeiro, é inseparável do sermos capazes de ver e potenciar, em todo o ser humano, a Presença ativa, transformante e divinizante do Deus-Amor. Eis o mistério do Natal e eis o mistério do Cristianismo, pois o mistério de Deus e do homem.

Celebrar o Natal e entrar neste diálogo que liberta e que culmina todas as nossas inclinações naturais, é ser repleto de uma alegria imensa que perdura mesmo através das feridas da tristeza. É deslindar que Deus não é um déspota que esmaga, mas uma Doação incessante de amor libertador que pode ser ferida quando recusada. É vislumbrar que cada um de nós só nasce verdadeiramente quando, por uma paixão de amor por todos e por tudo, nos desprendemos no nosso “ego”; do nosso “eu-feito-prisioneiro-pelo-desamor”. É descortinar que o infinito não é um espaço ou um tempo sem fim, mas o, no amor, estarmos livres de nós, a ponto de podermos ser uma co(m)-origem e uma co(m)-respiração de amor. E isto, justamente à semelhança d’Aquele que, cada vez mais, é esquecido nesta ocasião do ano.

Uma ocasião em que, verdade seja dita, já comummente não valorizamos: nem a Jesus (e, face a isto, não há sinodalidade que nos “salve” enquanto Igreja); nem à intenção que subjaz a este ou àquele presente que damos àqueles de quem não nos podemos fazer presente nesse momento do ano (eis a raiz, também profundamente cristã, do “presente” natalício”); nem a estes mesmos presentes. Antes, tantas e tantas vezes, apenas ao talão de troca desses presentes. Aquele talão que nos permite trocar o que gratuitamente nos quiseram presentear, pelo que ambicionamos controlar.

Pena que seja assim; pena que não reconheçamos no Natal a celebração daquele evento em que Deus revelou que a nossa transcendência é o poder, sempre frágil, do amor; é o poder, sempre frágil e fragilizante, do serviço; é o poder, sempre imensamente fragilizante, de sermos os últimos de todos para que a todos possamos servir; é o poder, que eleva quando descemos, de transformarmos em dom toda a nossa vida, pois até que isto aconteça, não estaremos a viver essa vida, mas a padecê-la. Frágil e fragilidade, descer e elevar. Sim: o Natal já é a oferta da Cruz do amor desarmado que é a estrela que brilha em todas as nossas noites; do amor que só é verdadeiro se estiver disposto a ir até à Cruz em que poderemos, finalmente, dizer “amo em todas as ocasiões”.

É verdade que somos egoístas e tudo o mais que o egoísmo gera, mas não somos apenas isso, nem nos reduzimos, portanto, a isso. O Natal, colocando-nos face-a-face com o Deus-Menino que nos insere na esfera da gratuidade mais pura, mostra que somos capazes de uma generosidade quase infinita. Uma que, alicerçada naquela plenamente infinita de Deus, nos revela a nossa verdade e, assim, o que somos na nossa essência: criaturas divinizáveis.

Aqui está a razão de que, para um cristão adulto, o Natal só pode ser um Natal em nós: no deixarmos que Deus nasça genuína e livremente no nosso ser, para, assim, nos convertermos numa dádiva contínua de amor, que revele, de outra forma e a todos aqueles com quem nos cruzamos, o que é dito sublimemente na Eucaristia: “o Senhor está no meio de nós”.

Eis a palavra decisiva do Evangelho do Cristianismo que é a religião da Incarnação divinizante: o homem ser capaz de ser feito Amor, pois não há outro ostensório tão magnífico para aquele Deus-Amor que subsiste eternamente numa sinfonia trinitária de doação e acolhimento. Só nós, entre toda a Criação, podemos ser acolhimento e doação, permitindo – pela fidelidade das nossas faculdades espirituais (entendimento, vontade, memória, imaginação, etc.) – a circulação de amor que é o substrato do Ser e de todos os seres. O bloqueio dessa circulação é, de qualquer ângulo que queríamos ponderar a realidade, o âmago do anti-Natal; o cerne do pecado; o centro da recusa da eternização do tempo; o fulcro da rejeição da imortalização; enfim, o núcleo da rejeição de Deus porquanto rejeição do homem.

Celebremos a sério o Natal nesta altura do ano, recebendo do Pai o Seu presente a nós dado pelo Espírito e por Maria, para assim, e só assim, todo o ano poder ser um eternamente novo Natal; para que cada dia da nossa vida possa ser o nascer, em nós, do Deus baixíssimo, de modo a que, ato contínuo, ajudemos Este a nascer nos demais assim feitos altíssimos.

Alexandre Freire Duarte * Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

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