“Dia do Corpo de Deus”: Deus com corpo e nós sem ele?

Vivemos há dias um daqueles feriados que nos sabem tão bem, mas que, ao mesmo
tempo e no que concerne à sua motivação, nos deixam baralhados; ou, mais provavelmente,
completamente indiferentes. Refiro-me ao “Dia do Corpo de Deus”. Este nome talvez pudesse
ser suficiente para nos fazer parar e pensar, por exemplo, em que sentido é que os Cristãos –
essa minoria bizarra que acredita que o amor é a essência do essencial – dizem que Deus tem
um corpo.

É um facto que as palavras mudam de sentido com o tempo, seja para nos ajudarem a
nos adequarmos ao real, seja para nos afastarem deste mesmo real. Seja. Mas se “corpo”, na
tradição civilizacional que ainda nos inserimos, designa a “exterioridade relacional” (“sôma”,
em grego), então um Deus que nos espantou ao se mostrar como Amor e nada mais do que
Amor, não pode senão ser (e ter) corpo. Deveras, toda a Sua vida é pura relacionalidade numa
eterna dança vibrante de amor dado e acolhido.

Nós – seres humanos – é que, por vezes, não temos “sôma”. E não a temos,
particularmente quando absolutizamos a nossa individualidade e, pior ainda, o nosso egoísmo,
a ponto de, em casos extremados, as nossas relações se reduzirem a uma ténue conexão com
o cotão do nosso ser e, assim, de “relações” não terem quase nada.

Naquele mesmo contexto civilizacional, aquilo a que frequentemente denominamos de
nosso “corpo”, é apenas – e já não é pouco – o suporte material (“sarx”, em grego) do nosso
corpo. Um suporte imprescindível para, neste universo espácio-temporal em que vivemos,
podermos relacionar-nos exteriormente e, assim, sermos (e termos) “sôma”.

O “Dia do Corpo de Deus” é um intento de nos chamar a atenção para o que foi sendo
referido até agora. E nos tentar relembrá-lo, mediante o nos convidar a focar a atenção na
espantosa convicção de que, há cerca de 2000 anos, tal Deus-Amor não se coibiu de assumir
uma “sarx” humana. Uma que, desde então, está para sempre inserida no seu coração;
inserida, pois, no antes mencionado eterno bailado de amor oferecido e recebido.

Tal Deus não se limitou a pedir que, para nossa felicidade, passássemos da vivência
celebrativa da nossa “sarx” para a do “sôma” com essa “sarx” – isso seria adequado a um
professor, mas não a um amante. Ele passou de ser apenas “sôma”, a ser “sôma” com uma
“sarx” tão visível como a nossa. Uma “sarx” que, como Ele referiu – e se não tivesse referido,
os cristãos não acreditariam nisso –, ainda podemos ver, tocar e saborear naquele estranho
pão que algumas confissões cristãs chamam de “pão eucarístico”.

Eis um “pão” que não elimina, antes compendia os nossos labores, as nossas histórias e
as nossas vidas, não enquanto reduzidas a um somatório de partículas de trigo, mas enquanto
transformadas e elevadas a um patamar propriamente divino – isto é, a um patamar de amor,
de liberdade e de humanidade humanizada à extensão do universo. Deveras, esse estranho
“pão” não é uma Presença magicamente localizada, mas uma Presença amorosamente
universalizada.

Pão… pão resultante do nosso esforço, sim, mas também pão enquanto delícia da nossa
vida. Sermos tal estranho “pão”, reunido – a partir de inúmeras sensibilidades e circunstâncias
– para ser repartido em alimento de alento amoroso aos demais, é a felicidade pela qual todos

nós ansiamos. Mas, ao mesmo tempo, aquela da qual mais rapidamente passamos ao lado,
quando, andando distraídos (do latim “distractio”: dilacerado) recusamos amar e fazer do
sempre exigente amor o entretecido mais fundamental das nossas vidas.

Tal vida em amor coextensivo à felicidade mais substancial e perene, não é fácil. Mas
talvez seja por isso que, como acontece com as adivinhas difíceis, não nos esquecemos dela.
Ela implica, por amor a essa mesma vida, uma continua morte àquele antes aduzido cotão que
nos vai matando diariamente. Ou seja: implica – como a festividade do “Corpo de Deus”
pretende visibilizar desde o séc. XIV – um amor corajoso em que o mais profundo desejo de
vivermos em felicidade assume a forma de uma disponibilidade para morrermos ao que de
menos verdadeiro existe em nós.

Nisto, nós temos que ser como um soldado. Um que – rodeado de inimigos (o nosso
egoísmo, que nos impede de amarmos a quem quer que seja além dele mesmo) no decurso de
uma batalha (a nossa pugna pela vida em felicidade) – tenta escapar (a liberdade do amor). O
agarrar-se ferozmente à vida não basta, pois, nesse caso, será capturado e não logrará fugir;
por outro lado, também não bastará esperar inertemente a morte, pois assim também não
escapará. Ele tem que demandar a vida com toda a energia e, ao mesmo tempo, desprender-
se totalmente do receio da morte. Por outras palavras: só na articulação entre o não
recearmos morrer (ao nosso egoísmo) é que chegaremos à vida (na felicidade do amor). Sim: o
amor parte corações; parte-os quando o recusamos, seja nele mesmo, seja nas suas
magnificentes consequências.

Tudo isto que foi poderia ser um mero ideal utópico se, antes, não tivesse sido uma
realidade histórica que, comemorada no “Dia do Corpo de Deus”, foi, e pode ainda ser,
apreensível pelos nossos sentidos e pela nossa razão. Mas, de qualquer modo, não devemos
ter medo de ideais que possam ser metas densificadoras de uma nossa humanidade que
queremos humanizada. Com efeito, são eles que nos indicam se estamos a progredir, pois
nunca saberemos se estamos a melhorar se não soubermos o que é estar bem.

Esses grandes ideais – como o de, um dia, podermos vir a viver no próprio coração do
Deus-Amor que se fez “sôma” com uma “sarx” (sempre transformada e transformadora) para
todo o sempre – não diminuem ninguém, antes mostram a toda e qualquer a pessoa a
grandeza da dignidade que ela possui. No caso presente: o de ela poder ter a certeza de que já
está a caminho de, amando, vir a ser totalmente amorizada e “somatizada” – isto é,
transformado no próprio Amor puramente relacional que Deus é.

O busílis é que estamos a viver dias cada vez mais contínuos em que – analogamente ao
que foi referido, logo no começo deste texto, a respeito da linguagem – já não nos esforçamos
em transformar o real para este se adequar a um ideal saudavelmente entendido como, por
exemplo, aquele que foi anteriormente descrito. Estamos, isso sim – e por isso ser mais fácil e
cómodo –, a alterar o ideal para não nos enfrentarmos com o real. Não percamos tempo, pois,
a indagar o que vai mal no mundo. A resposta é simples: nós entregues à mediocridade do
nosso amor.

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Por Alexandre Freire Duarte

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